Um poste de luz e a identidade de uma rua
Por Wellington Júnior
Trocar um poste de luz é uma tarefa complicada, que exige o apoio de uma equipe muito bem treinada e algumas horas para concluir o serviço.
Curiosamente, é o tipo de trabalho que desperta a atenção dos moradores ao redor, causando agitação e, por incrível que pareça, até revelando alguns costumes do lugar.
Bateu a curiosidade? Então, continue a leitura para entender melhor do que estamos falando. Acompanhe!
Expectadores e heróis
Durante a substituição de um poste de luz, as casas ficam sem energia elétrica e os seus moradores decidem assistir tudo de perto porque não têm nada para fazer.
Esse tipo de situação costuma atrair a curiosidade de muita gente. Em poucos minutos, elas se amontoam e criam verdadeiras plateias que não tem pressa para ir embora.
Mas você já se perguntou por que um serviço desse tipo desperta tanto a curiosidade coletiva?
Não é apenas uma questão de pura curiosidade. Sendo assim, nós temos duas hipóteses que podem explicar melhor essa situação. Entenda!
1. A primeira explicação é que existe uma "expectativa coletiva" para ver a solução de um problema que está afetando a vida de todos volte ao normal o mais rápido possível;
2. A outra hipótese é a mais interessante. Quando as pessoas veem todos aqueles funcionários usando uniformes, ferramentas e máquinas pesadas, elas criam a imagem de verdadeiros heróis que estão ali para livrar a comunidade da escuridão total.
O filme Armageddon (1998) ilustra melhor essas duas hipóteses.
A história mostra os melhores profissionais do mundo em prospecção de petróleo, sendo levados por uma nave espacial até um asteroide gigante que está em rota de colisão com a Terra.
Eles perfuram o asteroide, instalam uma arma nuclear dentro dele e conseguem explodi-lo, evitando, assim, a extinção da humanidade. De volta à Terra, eles são recebidos como heróis.
Parece um exemplo exagerado. Porém, por mais fantasioso que seja, ele ajuda a entender um pouco sobre como as pessoas se sentem quando estão assistindo a execução de um serviço público desse porte.
Ou seja, elas só querem que aquele problema que está atrapalhando as suas vidas, naquele momento, seja resolvido definitivamente.
No meio de todo esse enredo, há ainda a participação de outros personagens. Conheça a seguir.
Os coadjuvantes
Enquanto tudo acontece, alguns moradores ganham destaque por recepcionar bem as equipes que estão trabalhando.
Geralmente é um clima de muita informalidade e respeito - embora seja bem diferente quando há cortes de luz ou de água, mas esse é um bom tema para outro texto.
No meio de toda a muvuca, pelo menos quatro personagens se destacam no meio da multidão e todos conhecem muito bem.
As donas de casa
Elas se agrupam com quem estiver por perto e aproveitam para saber sobre os principais assuntos na vizinhança.
É nessa hora que a curiosidade de cada uma delas está em seu nível mais alto, fazendo a fofoca correr solta e sem limites.
As consequências aparecem no outro dia, quando todos os assuntos que elas "discutiram" se espalham por cada casa e entre cada morador.
É o tal "disse que não me disse" que começa a render muita conversa até terminar em confusão.
Provavelmente você já viu esse tipo de situação. Bom, é melhor mudar de assunto e conhecer os outros personagens.
Os maridos
Eles se reúnem em grupos de três ou quatro, ficam com os braços cruzados ou com as mãos na cintura, olhando atentamente os técnicos trabalharem.
É curioso como a experiência desses chefes de família trocando as lâmpadas das suas casas e emendando fios é mais que o suficiente para diagnosticar erros.
Além disso, sem falsa modéstia, ainda dão sugestões sobre como os técnicos deveriam trabalhar, porque eles têm a certeza de que todo o serviço está errado.
É mole!?
A molecada
É a gurizada da rua. Esses nem atrapalham e nem ajudam. A única expectativa deles é ver os fios estourando com faíscas para todos os lados e o transformador explodir e queimar liberando uma enorme bola de fogo.
Não tem muito o que dizer. É simplesmente a melhor fase da vida, onde tudo é divertido e a noção de perigo passa distante.
Mesmo assim, seria muito injusto não lembrar dessa turma, não é mesmo?
Os bebinhos
Ainda têm os famosos "bebinhos do bar da esquina". Essa turma fiscaliza o trabalho de perto, fazendo gestos para todas as direções e com as palavras saindo aleatoriamente sem fazer conexão com nenhum assunto.
Esses últimos personagens - ou coadjuvantes - também fazem parte da identidade de outros lugares, por isso, acho que merecem um texto exclusivo para eles. O que vocês acham? Decidam!
Bom, depois de tantos "consultores" envolvidos, finalmente o poste de luz é trocado e o serviço termina.
Mas não acaba por aí. A parte mais curiosa acontece assim que a luz volta ao normal em todas as casas. É aí que as coisas ficam mais interessantes.
Missão cumprida: Luz para todos!
Quando o serviço termina, a energia elétrica volta ao normal e as luzes das casas se acendem de uma única vez, confirmando que o "perigo" acabou e todos estão a salvo.
Nesse momento acontece uma salva de palmas coletiva de todos os vizinhos, sempre acompanhadas de alguns gritos acalorados do tipo "aêêê!!!", "uhull!!!", enquanto os mais religiosos preferem soltar um estridente "oh glória!!!" até um "aleluia!!!".
Já os mais descontraídos preferem lançar pérolas do tipo: "me dê, papai" e “arrocha que ela gosta” - quem é do nordeste e gosta de memes sabe do que estou falando.
Mas não acaba por aí.
Nos minutos seguintes, é possível ouvir o áudio de vários televisores e aparelhos de som ligados simultaneamente e no volume mais alto, criando uma poluição sonora igual ao dia de jogo do Brasil.
Como se não faltasse mais nada para acontecer, o cheiro forte das velas apagadas na vizinhança se espalha entre as casas aumentando ainda mais toda a algazarra.
Só quem vive nos bairros simples sabe como o “povão” lida com as suas dificuldades e celebra as suas vitórias como ninguém.
Um jeito único de encarar as dificuldades
Esses foram apenas alguns exemplos sobre como certas comunidades - algumas ruas, para ser mais exato - encaram os problemas do seu cotidiano com alegria e entusiasmo.
Elas conhecem as suas dificuldades diárias mas, ainda assim, dão um jeito de encará-las com muita informalidade, realismo e bom humor.
Ficar sem eletricidade pode ser muito desagradável, mas quando isso acontece no lugar onde o povo está, pelo menos, ainda existe a garantia de algumas horas de entretenimento e esperança.
Agora é com você! Escreva nos comentários aquilo que torna a sua rua ÚNICA NO MUNDO!!!
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