Quando o "dchi" não pertence a "tchi"

Por Wellington Júnior

O título é curioso e você deve estar se perguntando: mas que bixiga é esse negócio de "dchi" e "tchi"?

Deixa eu explicar!

Mas o que significa isso?

Sabe aquelas pessoas que tem um sotaque típico de uma determinada região do país?

O nordestino serve como exemplo.

Tem umas que quando vão passar alguns dias em algum estado do sul ou sudeste voltam como se tivessem ficado por anos naquele lugar.

Pois é! Quem nunca conheceu alguém assim? Eu conheço vários e vou te mostrar alguns exemplos, logo a seguir.

A menina que não veio do sul

Lembro na época em que trabalhei em uma farmácia, tinha uma colega de trabalho que se achava a menina que veio do sul - como diria o grupo É o Tchan.

Ela impressionava pelo esforço que fazia o tempo todo para usar o dchi e o tchi no seu vocabulário.

Quando chegava para trabalhar de manhã cedo, era um tal de cumprimentar os colegas com um "bom dchia!" pra lá e um "bom dchia" pra cá.

Nós já estávamos até acostumados, mesmo sabendo que ela nunca tinha saído da sua terra natal, Sergipe.

Mas o que mais chamava a atenção era quando ia dar o preço dos medicamentos para os clientes.

- Custa vintche e cinco, senhor.

E quando finalizava uma venda, era quase um clichê.

- O senhor podche pagar ali no caixa, por gentchileza. Tenha um excelentche dchia!

Mas esse tipo de situação não acontecia apenas no trabalho.

Fora dali, sempre que eu precisava ir ao banco para resolver algum problema, por vezes eu me deparava com algum atendente que seguia esse modismo.

Era tanto tchi e inflexão na voz que, às vezes, eu me sentia como se tivesse parado em um lugar desconhecido. Era tudo muito estranho. Meu Deus!

Mas eles não foram os únicos que conheci, também tenho exemplos na família.

A falsa carioca

Na minha infância, eu tchinha uma prima (Eita! Olha eu pegando o vício), que já era quase adulta e vivia treinando a sua dicção na frente do espelho.

Foi uma maneira que ela encontrou de se preparar para tentar ingressar no mercado de trabalho.

Esse caso, em particular, tinha um detalhe adicional: ela queria ser carioca a qualquer custo e vivia trocando o "s" de algumas palavras por um "x" bem arrastado. 

Daí, quando encarava o espelho, abria um sorriso forçado, amarelo e seco, deixava a coluna bem reta e os quadris bem esticados para a frente, ficando quase na ponta dos pés, e começava a repetir frases como:

- Claro, Senhora! Estou aqui para tche ajudar no que for preciso. Nós temos muitas opções dche produtos com os melhores deXcontoX." 

Ainda não sei ao certo porque essa gente valoriza tanto o sotaque de outras regiões, sendo que o nosso, aqui no nordeste, é muito rico, bastante característico e digno de ser admirado.

A melhor explicação

Devem ter várias explicações espalhadas na internet sobre esse fenômeno - se é que pode ser chamado assim -, mas a verdade é que eu preferi escrever o que penso e vejo no dia a dia sob o meu ponto de vista. 

Ainda assim, aderi a um comentário que uma grande amiga me fez um dia desses em um áudio recebido no Instagram.

Ela sugeriu que algumas pessoas parecem ter uma tendência de admirar profundamente quem é do sul, principalmente se ela souber falar inglês ou já ter visitado outros países - diga-se a Europa, em particular. 

Faz sentido! Mas também acho que muitos ainda carregam uma espécie de estigma de submissão em relação a outros lugares.

Pode ser isso também. Ainda assim, a parte mais interessante do comentário dela foi a gaitada gostosa e espontânea que ela soltou no final do seu próprio comentário. Até isso combinou com a sua análise.

Entretanto, como a intenção não é discutir esse tema com profundidade, vamos deixar isso para uma outra ocasião.

Conte a sua resenha

Eu sei que se você chegou até aqui deve conhecer bastante gente como as que citei que adoram usar o dchi para ser dchiferente

Mas eu também sei que você está rindo nestche exato momento. Confesse!

Então, porque não aproveita a oportunidade e conta a sua história. Estou muito curioso para ler e interagir. 

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