Saí para trabalhar numa manhã quente e ensolarada de verão. Eram 6h23 e já tinham seis pessoas no ponto de ônibus: um rapaz, quatro mulheres e uma adolescente que acompanhava uma delas - nitidamente mãe e filha.
Percebi que todos estavam em pé. Pelo jeito, ninguém se arriscou a sentar no banco que era feito de concreto e, naquela hora e com aquele sol, queimava como brasa.
Notei também a impaciência das pessoas. Caminhavam de um lado para o outro se abanando, olhando relógios, mexendo nos celulares e resmungando por causa da demora do transporte que não chegava, sem contar o calor que parecia aumentar.
E foi aí que, de repente, sem ninguém esperar, todos tomaram um baita de um susto.
A mãe que estava no meio daquela muvuca toda puxou a sua filha bruscamente pelo braço para ficar ao seu lado. Foi uma força e velocidade tão absurdas que assustou todos ao redor. Ninguém entendeu nada.
Parece que a jovem tentou se sentar no banco de concreto saído do quinto dos infernos, mas foi impedida a tempo pela sua mãe.
Ela começou a dar bronca, chacoalhando-a pelo braço e falando numa rapidez afobada:
"Oxe, menina! Tá doida? Não senta nisso aí não. Vai pegar escorrimento".
Se afastou ainda mais do banco e continuou falando:
"Fique aqui perto de mim. Ajeita os cabelos. Arrume sua blusa. Limpe atrás do short. Se aprume, menina. Oxente!"
A adolescente, completamente desorientada, obedeceu as ordens calada. Era muita coisa para entender ao mesmo tempo.
Enquanto isso, quem assistiu a cena reagiu com susto e desconforto, cada um à sua maneira.
O rapaz tentou encarar as duas, mas ficou com receio e mudou logo a direção do olhar. Uma mulher se remexeu toda desconfortável, só que disfarçou como se nada tivesse acontecido.
As outras duas se olharam com cara de espanto e foram cuidar das suas vidas. Já eu disfarcei o susto que levei, mas com o coração ainda querendo "sair pela boca".
E não parou por aí. A situação ficou ainda mais doida. A mãe puxava a roupa da mocinha para um lado, esticava do outro e ainda balançando ela pelos ombros.
O momento mais estranho foi quando ela tirou uma garrafinha de água da sua bolsa e quase matou a guria engasgada fazendo ela tomar a metade dizendo que era para se purificar.
Ela só foi se aquietar mesmo quando o ônibus chegou.
No caminho, fiquei observando para ver se as duas iriam sentadas, mas não foi o que aconteceu. Foram em pé durante todo o trajeto, mesmo com lugares vazios. A essa altura, eu já sabia que era medo de pegarem "escorrimento".
Algum tempo depois, chegaram no Centro da Cidade. Assim que desceram do ônibus, a mãe segurou a mão da jovem e seguiu rápido na direção da multidão arrastando ela com passos acelerados e quase aos tropeços.
Fiquei olhando aquela cena confusa pela janela até sumirem no meio do povo. Daí em diante, segui o meu caminho e nunca mais vi as duas.
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